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terça-feira, 21 de abril de 2015

O que Chaplin e Hitler têm em comum (além do bigode)?

(Da revista Superinteressante -Por Thaís Zimmer Martins)
O chapéu coco, a bengala e o andar torto com sapatos gigantes são algumas características que imediatamente nos fazem lembrar de Charles Chaplin. Mas elas têm sentido apenas juntas. O bigode escovinha, porém, já basta para que possamos reconhecer a figura do cineasta. A questão é que esse mesmo bigode, usado pelo cara que fez (e talvez ainda faça) muita gente rir, é também a principal característica física de Adolf Hitler,  líder do partido nazista alemão e considerado por muitos o símbolo da crueldade e do fanatismoApesar de causarem reações tão diversas, há também muitas semelhanças entre os dois, mais do que um simples bigodinho..
Data de nascimento
Quatro dias separaram os dois. O cineasta nasceu no dia 16 de abril de 1889, em Londres, há exatos 126 anos. Pouco depois nascia Hitler, no dia 20 de abril do mesmo ano, em Branau am Inn, na Áustria.
Little Adolf
Adolf Hitler nos primeiros anos de vida
Queriam ser artista desde pequenos
Foi completamente sem querer que Chaplin entrou pro mundo artístico, assim como foi sem querer que ele criou o personagem mais famoso dele, o Carlitos (mais conhecido como Vagabundo). Mas tudo começou com um erro. Não dele, mas de sua mãe, Hannah, uma cantora e atriz dos conhecidos teatros de variedades. O pequeno Chaplin, na época com cinco anos, viu a voz de Hannah falhar completamente em uma apresentação. Sem saber direito o que fazer, ele foi para o meio do palco e começou a cantar. Em seu livro autobiográfico, Minha Vida, Chaplin descreve o momento em que se descobriu ator:
E repetindo o estribilho em toda a minha inocência, eu imitei a voz de mamãe a falhar – e fiquei surpreso com o efeito que isso causou na plateia. Risadas e aclamações, nova chuva de moedas; e quando mamãe reapareceu no palco para levar-me, sua presença desencadeou tremendos aplausos. Essa noite marcou a minha primeira aparição em cena e a última de mamãe.
Já Hitler demorou um pouco mais pra descobrir que profissão queria seguir. Ao contrário de Chaplin, que seguiu os passos de Hannah, o ditador desafiou o desejo da família. O pai, Alois Hitler, queria muito que o filho fosse funcionário público, assim como ele, e insistiu nisso até o último momento. Aos 13 anos, Hitler viu claramente que queria ser artista. No livro que escreveu na prisão em 1925, Mein Kampf, ele deixa isso claro, assim como a reação (nada simpática) de Alois:
Quando eu, pela primeira vez, depois de renovada oposição ao pensamento favorito de meu pai, fui interrogado sobre que profissão desejava então escolher e quase de repente deixei escapar a firme resolução que havia adotado de ser pintor, ele quase perdeu a palavra. (…) “Pintor, não! Enquanto eu viver, nunca!” terminou meu pai.
O fato de Alois morrer no mesmo ano em que esse episódio aconteceu abriu espaço para que Hitler tentasse entrar na Academia. Com uma pastinha embaixo do braço cheia de desenhos, ele foi fazer os exames achando que seria aprovado facilmente. Mas o diretor não achou Hitler tão brilhante assim e o rejeitou  o que fez o rapaz se sentir arrasado. Algum tempo depois, aos 24 anos, Hitler conseguiu chegar perto desse sonho quando se tornou um pintor de retratos de turistas em Munique.
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Uma das pinturas de Hitler, feita em 1914
Não se davam bem com o pai
O casamento de Hannah e do músico Charles Spencer Chaplin acabou no terceiro ano de vida do menino. Além de estar quase sempre bêbado, o pai casou outra vez após a separação e passou a ignorar o pequeno Chaplin. A bebedeira levou ele à morte em 1901, quando Chaplin tinha apenas 12 anos.
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À esquerda, o pai de Chaplin e, à direita, Alois Hitler, pai do ditador
Apesar dos pais de Hitler não terem se separado, a situação foi bem parecida com a de Chaplin. Alois Hitler também faleceu cedo, apenas um ano após a morte do pai do Chaplin. Mas não foi de cirrose. O que matou Alois foi um ataque apoplético. Antes disso, Hitler enfrentou sérias discussões com o pai, por causa do seu futuro. Não existem informações no livro Mein Kampf sobre as agressões físicas, mas outros livros afirmam que Hitler apanhava muito dele.
Os dois perderam a mãe cedo
Não foram apenas os pais que morreram quando Chaplin e de Hitler eram pequenos. Em 1907, cinco anos depois do falecimento de Alois, Hitler viu a mãe, Klara Hitler, falecer por causa de câncer. A perda dos dois deixou Hitler órfão aos 18 anos, e pobre. Esse era o começo de um longo período de privações. Nessa mesma época, Chaplin já passava por uma situação bem crítica. Hannah só foi falecer em 1928, mas a loucura tomou conta dela nos primeiros anos de vida do Chaplin.

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Na primeira foto aparecem Chaplin, a mãe Hannah e o irmão mais velho Sydney. Na segunda foto, Klara Hitler

Infância e/ou adolescência pobres
Ainda quando a mãe de Chaplin estava viva, a situação financeira não era das melhores. No momento em que as crises de loucura começaram a aparecer, Hannah passou a ser internada diversas vezes. Com isso, Chaplin e o irmão mais velho, Sydney, se viam jogados de um lado para outro. A Escola para Crianças Pobres do Centro de Londres foi o principal lar dos dois nesta época, e representava rigidez e sofrimento. A cena do filme O Garoto, em que a lei leva o menino para o internato, é uma representação desse momento da infância do cineasta.
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A péssima situação econômica não melhorou quando Sydney começou a viajar por causa do trabalho. O problema é que, nessa época, Chaplin ainda era muito pequeno para ficar muitos meses sozinho. Mesmo não tendo idade para trabalhar, o menino tentou alguns trabalhos, como entregar jornais, mas nada rendia muito dinheiro. Então, aos 14 anos, decidiu que tentaria fazer aquilo que aprendeu nos primeiros anos de vida: atuar. Ele procurou um dos mais importantes agentes teatrais de Londres da época e logo foi chamado para participar de uma peça. Dali em diante, Chaplin ficaria cada vez mais famoso.
A coisa foi mais ou menos assim para Hitler, tirando o fato de que ele era um pouco mais velho. Após a morte da mãe e com pouco dinheiro, o adolescente de 18 anos passou a perambular em Linz, na Áustria, e depois na capital Viena. Em Mein Kampf essa fase é descrita:
Ainda hoje, essa capital só desperta em mim pensamentos sombrios. Cinco anos de miséria e de sofrimentos, eis o que significa a minha estadia nessa cidade de prazeres. Cinco anos em que, primeiro como ajudante de operário, depois como aprendiz de pintor, vi-me forçado a trabalhar pelo pão quotidiano, mesquinho pão que nunca bastava para saciar a minha fome habitual. A fome era então minha companheira fiel que nunca me deixava sozinho e que de tudo igualmente participava.
Nessa época Hitler começou a ler muito. E ele mesmo afirma que isso foi fundamental para o “modo de agir” que ele escolheu a partir de então.
Young Hitler
Adolf Hilter jovem tinha outro estilo de bigode antes da Segunda Guerra
Bigode
Nada une mais Chaplin e Hitler do que o bigode que eles escolheram usar. Na verdade, a característica aparece primeiro em Chaplin, quando ele cria o Vagabundo, ou Carlitos. A estreia do personagem é em um filme de 1914, Kid Auto Races At Venice. Quase trintas anos depois, já com o Carlitos fazendo um sucesso absurdo, a foto de Hitler chega até Chaplin. Ele descreve sua impressão no livro Minha Vida:
Vanderbilt enviou-me uma série de cartões-postais com flagrantes fotográficos de Hitler a fazer discursos. A fisionomia do homem era obscenamente cômica – um mau arremedo da minha cara, com o bigodinho ridículo, os cabelos escorridos e despenteados, um quê de repelente na boca miúda de lábios finos. Eu não podia tomar Hitler a sério.
Solidão
Outro ponto que liga Chaplin e Hitler é a dificuldade que eles tinham para fazer amizades. O cineasta considerava o trabalho mais importante que qualquer coisa, e por isso ficava sozinho com frequência. Isso também afetou seus relacionamentos amorosos. O fato é que a entrada de Chaplin no mundo das celebridades o entristeceu. Ele se viu cercado de pessoas que aparentavam ser o que não eram. O comediante as via se aproximando por interesse e ficava entristecido com isso. Outro trecho do livro Minha Vida mostra esse sentimento:
A solidão é repelente. Tem uma aura de tristeza, uma inadequação para atrair ou interessar, a tal ponto que nos sentimos ligeiramente envergonhados quando ela nos rodeia. Mas, num grau maior ou menor, atinge a todos.
Assim como Chaplin, Hitler não conseguia cultivar amizades, mas os motivos são um pouco diferentes. O ditador confessou à cineasta nazista Leni Riefenstahl que era incapaz de discutir intelectualmente. Ele também se definiu como um “solitário”. O mordomo de Hitler de 1934 a 1939, Karl Wilhem Krause, confirma que ele gostava de passar grandes períodos do dia sozinho no quarto.
Paixão pelo cinema
Talvez a solidão possa ter a ver com o fato de ambos gostarem do cinema. Chaplin passou 57 anos criando, atuando e dirigindo com frequência, o que tomava boa parte do seu tempo. Já Hitler gostava de assistir a filmes, mas também arriscou interpretar. Antes do cinema sonoro e da guerra, o ditador e os companheiros políticos gravaram cenas mudas que eram acompanhadas por descrições do que ele estava falando. Essas cenas mostravam um discurso. Como não havia som, os vídeos tiveram efeito contrário: ficaram cômicos. Hitler também mantinha um diário em que anotava as suas impressões sobre os longas. Tarzan, por exemplo, é classificado como schlecht, que significa ruim.
Candid Camera
Chaplin dirigindo um filme logo nos primeiros anos que assinou contrato com o cinema
Estatura
Além de todos os aspectos psicológicos e do bigode aparado da mesma forma, Hitler e Chaplin eram aproximadamente do mesmo tamanho. Não se sabe precisar a altura do ditador, mas ela era considerada “mediana”, baixa em comparação aos alemães da época. Já Chaplin media exatamente 1,65. Mesmo que as fotografias e os filmes preto e branco não mostrem, os olhos dois dois eram…quem diria, azuis.

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